Os avanços no tratamento do mieloma múltiplo têm ampliado as possibilidades de controle da doença, especialmente para pacientes que apresentam recaídas ou receberam múltiplas linhas terapêuticas. Entre as estratégias disponíveis estão os anticorpos biespecíficos, medicamentos que utilizam o próprio sistema de defesa do paciente para reconhecer e combater as células cancerígenas.
O que são anticorpos biespecíficos?
Os anticorpos biespecíficos são medicamentos desenvolvidos para reconhecer dois alvos diferentes ao mesmo tempo. No tratamento do mieloma múltiplo, muitos deles se ligam a uma proteína presente nas células tumorais e ao CD3, uma molécula encontrada nos linfócitos T, células de defesa do organismo.
Essa ligação aproxima os linfócitos T das células do mieloma e favorece sua ativação para destruir as células cancerígenas.
Diferentemente de tratamentos que atuam diretamente sobre o tumor por outros mecanismos, os anticorpos biespecíficos redirecionam células do sistema imunológico para combater a doença.
Quando os anticorpos biespecíficos são indicados no mieloma múltiplo?

Esses medicamentos são utilizados principalmente em pacientes com mieloma múltiplo recidivado ou refratário. O termo recidivado indica que a doença voltou a apresentar sinais de atividade após uma resposta ao tratamento. Já o mieloma refratário é aquele que não responde adequadamente a uma terapia ou progride durante ou após seu uso.
A escolha da terapia considera fatores como:
- Os tratamentos já utilizados e a resposta obtida;
- A presença de resistência a determinadas classes de medicamentos;
- As características biológicas do mieloma;
- As condições clínicas e as comorbidades do paciente;
- Os benefícios esperados, os riscos e a disponibilidade do tratamento.
Por isso, nem todos os pacientes com mieloma múltiplo têm indicação para receber anticorpos biespecíficos. A decisão deve ser individualizada pelo hematologista.
Quais são os principais anticorpos biespecíficos utilizados?
Entre os medicamentos dessa classe estão o teclistamabe e o elranatamabe, que reconhecem o BCMA, uma proteína presente nas células do mieloma, e o CD3 dos linfócitos T.
Também existem anticorpos biespecíficos que atuam sobre outros alvos, como o GPRC5D. O talquetamabe, por exemplo, utiliza esse mecanismo para aproximar os linfócitos T das células tumorais.
Embora compartilhem o princípio de redirecionar as células de defesa, esses medicamentos apresentam diferenças nos alvos, nas indicações, nos esquemas de administração e nos efeitos adversos. A escolha depende da situação clínica e das opções adequadas para cada paciente.
E quais são os possíveis efeitos adversos?
Apesar dos benefícios, os anticorpos biespecíficos exigem acompanhamento especializado, pois podem provocar efeitos adversos que precisam de reconhecimento e tratamento precoces.
Entre os principais estão a síndrome de liberação de citocinas, reação inflamatória que pode provocar febre, calafrios, queda da pressão arterial e dificuldade para respirar. É importante reconhecer os sintomas rapidamente, especialmente no início do tratamento.
As infecções também fazem parte dos efeitos que merecem atenção. A ação do medicamento sobre o sistema imunológico e os efeitos do próprio mieloma podem aumentar a vulnerabilidade do organismo às bactérias e vírus.